Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos
Intróito

O que é, afinal, uma família?
É um nó de mundos cruzados,
Universo cheio de cores.
O que é, afinal, uma família?
É um templo de seres sagrados.
É a felicidade em diversos sabores.

Onde antes não havia ninguém
Os laços agora construídos
Geram tal intimidade
Como se sempre juntos tivessem vividos.

Quero dar voz a cada realidade
Deixar vazar meus sentimentos
Falar de alegria e de saudade
Sem ocultar invernos e tormentos.

Pai, filhos, esposa, viuvez,
Adoção, divórcio talvez,
Orfandade, enterro da filha,
Tudo isso se chama: família

Nem romantismo nem descrença
Falamos deste celeiro.
Somos todos sua pertença
É nosso berço primeiro.

Do pai

Chamam-me de senhor.
Parece que imponho respeito,
Mas que nada,
Carrego dentro do peito
Um redemoinho de amor.

Com minha esposa – amante eterna
Finjo ser meio durão,
Mas que nada,
É dela meu coração,
Não há no mundo mulher mais terna.

Sei do meu jeito agreste,
Reconheço ser meio rude,
Mas que nada,
Quero que o filho cresça, estude
E que seja um homem que preste.

Chamam-me de senhor,
E prestai atenção, olhai.
Condivido o mesmo nome de Deus.
Com orgulho carrego o nome de pai.

Da mãe

Quão precioso é meu dom:
Eleita entre os mortais.
Para que pudesse haver pais
Deus permitiu-me ser mãe.

Quão precioso é meu dom:
Do meu ventre nasceu a vida,
Em meu colo dei-lhe guarida
E o ouvi chamar-me de mãe.

Quão precioso é meu dom:
Também de mim Deus quis nascer
Quem sabe pra nos dizer
Que mesmo Deus precisa ter mãe.

Quão precioso é meu dom:
Meu filho, jamais saístes de mim.
Dei-te à luz, mas mesmo assim
Dormes neste colo de mãe.

Quão precioso é meu dom:
As dores que rasgam minh’alma,
Às vezes tiram-me a calma
E não tem outro jeito: sou mãe.

Quão precioso é meu dom:
Ainda que a prole cresça
E o tempo me envelheça,
És minha criança e sou tua mãe.

Das saudades da mãe

Minha mãe! Minha querida mãe!
Um dia fomos um:
Eu em ti, formando um só corpo contigo
Tu em mim – amor, puro amor.
Um nó de gente
Amarrado pra sempre no ventre da vida.

Conheci teu rosto quando me deste à luz
E chorei,
Porque me separavam de ti.
Não compreendia que teu amor era muito
E teu ventre já não o [me] continha mais.
[Querias pegar-me no colo
Aconchegar-me em teu peito
Alimentar-me em teu leito
Reconhecer-te em minha face].

Chorei,
Porque pensava que tinham te roubado de mim
Ou me roubado de ti – eu não sei!
Senti-me órfão e desabrigado
Pois não tinha mais minha casa, minha mãe.

Chorei,
Porque o calor do teu corpo
Não me aquecia mais.
Gritava desesperado
Tentando entender porque havias deixado
Que fizessem aquilo comigo.
[Mãe... mamãe... me ajuda! Salva-me! Eu te amo tanto!]

Parei de chorar ao ver-te sorrindo
– eu nunca havia visto um sorriso antes
mas reconheci seu som
pois quando me descobriste dentro de ti
também sorriste, daquele mesmo jeito.

Minha mãe! Minha querida mãe!
Reconheci quem eras
Quando ao primeiro choro
Vi surgir teu rosto à minha frente.
E outra vez aquele sorriso!
Senti que éramos um novamente.
E a saudade do teu ventre
Bateu em minha porta.
Ditou-me, então, estes versos
Que agora te entrego.
Deposito-os em teu ventre
Esperando que eles fecundem minhas
                                                  [nossas]
Lembranças
Gerando-me em ti outra vez.

....... [e o tempo passou] .......

Outra vez me encontro chorando
Mas teu sorriso não mais o vejo.
Agora permaneces aí, deitada
Com as mãos frias sobre o ventre que me gerou
E não sorris para mim
– sentirei falta do teu sorriso –
 
Minha mãe! Minha querida mãe!
Hoje é meu ventre que te acolhe.
Renasces em cada lágrima que em minha face escorre.
Dou-te colo em cada lembrança revivida.
Cedo meu peito para que te reclines à noite.
A saudade já me corrói por dentro
E mesmo aí onde agora jaz
Reconheço-te em mim – sou teu filho!

Da viuvez

Eu te procuro. Onde estás?
Que vento frio te levou de mim?
Minha metade foi-se embora
Mas sei que a morte não é o fim.

Revives em cada lembrança:
Neste anel que trago comigo.
Fomos felizes, eu sei que fomos.
Eu tive um esposo, um amante, um amigo.

Os filhos, os netos, a família,
Todos à volta da nossa mesa
Celebramos juntos esta saudade
Que faz abrandar a tristeza.

Feliz estás onde estás.
Feliz estou onde estou.
E mesmo apesar da morte,
Nosso amor não acabou.

Dos divorciados

Casamos pra sermos felizes
Mas qual terá sido o espinho?
Quando foi que a felicidade se foi
E cada um de nós seguiu sozinho?

Era pra ser até que a morte
Nos separasse em definitivo
E deixamos morrer o amor.
Qual terá sido o motivo?

Será que nunca fomos um
Numa simbiose do coração?
Nossas almas não eram gêmeas
Ou a rotina esfriou a paixão?

Do filho adotado

Corre em minhas veias
Sangue de outros ancestrais,
Mas se fosse escrever nessas areias
Com palavras cordiais
Lá dos pélagos mesmo as sereias
Leriam: sois vós os meus pais.

Como filho me adotaram
Sem saber quem eu seria,
E com que amor me amaram
Sem saber se eu os amaria.
E, caso acham que erraram
Eu, de pais não trocaria.

Não me deram só um berço,
Ensinaram-me a ser gente.
Por isso, têm o meu apreço
E vos digo: sois valente.
Talvez sou eu que não mereço.
Mas, que seja, Deus é benevolente.

Dos filhos

Quantos anos, afinal, eu tenho?
[Quis eu perguntar à minha mãe]
O sorriso que em seus lábios vi nascer
Revestido de nobre elegância,
Denunciou que nunca saí da infância
E que pra ela jamais eu vou crescer.

Quantos anos, afinal, eu tenho?
[Quis eu perguntar ao meu pai]
Vi naquele sorriso sereno, sinceridade.
Ainda que seu semblante fosse diferente
Respondeu-me, orgulhoso e contente:
Estás nos anos da responsabilidade.

As mesmas perguntas,
Diacrônicas respostas.
Jamais vi tão juntas
Situações tão opostas.

Que mãe, afinal, eu tenho?
[Perguntei a mim mesmo]
O silêncio invadiu-me em marés
Pois não há no mundo poesia
Ou canção de digna melodia
Que consiga expressar quem tu és.

Que pai, afinal, eu tenho?
[Perguntei a mim mesmo]
Outro silêncio, agora em tom de respeito.
Homem dotado de grande hombridade.
Eis sua maior qualidade:
Tem um coração que não cabe no peito.

As mesmas perguntas,
Semelhantes respostas.
Também postas juntas
Já não são mais opostas.

Quem sou eu, afinal?
[Resta-me perguntar]
Sou composto de duas metades:
Uma delas singela e materna,
A outra amiga e paterna.
Eis daí as minhas qualidades.

Quem sou eu, afinal?
[Resta-me perguntar]
Sou filho do pai que tenho
Que não troco por nada no mundo.
Sou filho da mãe que tenho
Um oceano de amor profundo.

À mesma pergunta
Digo sem medo jamais:
Quem sou eu afinal?
Isso basta: sou filho dos meus pais.

Da família

Eu vi Deus.
Ele se aproximou disfarçado.
Creio que não queria ser descoberto,
Por isso mostrou-se discreto
Em sua presença silenciosa.

Mas não teve jeito:
Veio elegante como ele só.
Sorriso estampado na face,
Tudo nele expressava um enlace,
Que há muito se realizara.

Estava radiante:
No pescoço um cachecol vermelho,
O cabelo escorrendo pelo ombro,
Sua beleza causou-me espanto, assombro.
Nos lábios um sorriso encantador.

Não estava só.
De repente apareceu outro alguém.
Mais jovem era agora.
Veio correndo lá de fora,
Com um sorriso cativante.

Estes seus dois disfarces:
A menina do cachecol vermelho,
Sempre se olhando no espelho
E o garoto vindo lá de fora,
Nunca chegando na hora,
Ambos os frutos de seu próprio ventre.

Disfarçou-se outra vez:
Agora era um senhor.
Não por isso menos elegante.
A barba destacava seu semblante,
E estampado, um sorriso acolhedor.

Tinha aparência serena
Apesar de apresentar-se cansado.
Mas ali, ao lado dos seus,
Este que digo ser Deus
Era um pai muito amado.

Porém, não estava completo,
Era apenas metade.
Como que numa só figura
Seu braço envolvia outra criatura
Que se deixava acolher.

E nela, o mesmo sorriso.
Cabeça reclinada ao peito,
Sentindo o compasso acelerado
Daquele coração apaixonado
Que completava seu ser.

Eu vi Deus.
Estava diante do meu nariz.
Eram dois que formavam um
E deste um brotaram outros dois:
Deus era uma família feliz.
 
Fernando Steffens
Enviado por Fernando Steffens em 09/05/2020
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