Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos
Crônica sobre os miseráveis (decida quais)
 
As cigarras têm o que fazer... o que ela fica gritando eu não entendo, sei que é pura esperança.
(Adélia Prado – Módulo de verão)
 
     Ontem pousou um passarinho em minha janela, trajando asas tingidas de amarelo-amanhã, e deixou um cantarolar ressoando em meus ouvidos. Mais parecia a cigarra da Adélia anunciando a esperança do Natal. Todavia, estamos em Páscoa, não é para lembrar das cigarras. É a primavera mediterrânea que está por florescer e com ela os ramos verdes do tronco de Jessé, como anunciava o Profeta, que já se põem a florir. É chegado o tempo da libertação, da renovação, das lanças e foices transformadas em arados, dos encontros anunciados e das vidas devolvidas a si mesmas. E será da haste de uma cruz que nascerá para nós este verde-louro de uma flâmula hasteada não a meio mastro, chamada esperança, que todos os hinos nacionais da terra querem agora cantar em suas pátrias. O ardente desejo pela cura, pelo fim de tudo isso, para poder abraçar novamente, trabalhar novamente, estudar novamente, celebrar, por fim, a missa. O êxodo de sua própria casa para qualquer lugar. Por quanto que aguardamos, como uma mãe esperando a hora do parto, da vida nova, dada à luz.

     Somos povo de fé, sim, de coragem também. E de memória curta, igualmente – que lástima. Iludido facilmente por falsos messianismos, no passado e agora. Temos que ser coerentes, minha gente, olvidamos sem escrúpulos os gritos que ecoam de dias remotos, uns mais longínquos outros mais próximos, daqueles que pagaram por pecados que não cometeram. Não é que o que está acontecendo não tem importância ou valor, longe disso. Mas por que as hecatombes que aconteciam antes, todos os dias – por fome, miséria, aborto, abandono, descaso, falta de leitos, de médicos, de remédios, de vontade, de vergonha na cara... – só eram, quando muito, notícias de jornais. Respondo: por que com aquelas já estávamos acostumados a conviver, eram vírus que não nos afetavam, infectavam nem incomodavam. Agora mexeu no bolso de todo mundo – e na consciência de alguns, cremos.

     Quem se lembra dos versos do Navio Negreiro, das infâmias vis que Castro Alves escreve em suas estrofes, das quais escorre sangue? Quem? Deves contemplá-lo por inteiro ao menos uma vez na vida, com bom dicionário ao lado e tempo suficiente – o poema é longo, já aviso. Nele, tantos outros gritos que anseiam por liberdade, por páscoas, por cigarras que cantem em suas janelas ou pássaros coloridos de amarelo-amanhã.

     S’tamos em pleno mar... anuncia o poeta dos escravos, convidando-nos ao embarque no brigue voador para uma horrenda viagem que vai se mostrando mais terrível a cada estrofe. Entre gritos e ais, chicotes e açoites, a rir-se Satanás, surge uma prece que se eleva aos céus: Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade/ Tanto horror perante os céus?! [...] Quem são esses desgraçados/ Que não encontram em vós/ Mais que o rir calmo da turba/ Que excita a fúria do algoz? E responde, ainda em reza, o poeta: São os filhos do deserto/ onde a terra esposa a luz/ Onde vive em campo aberto/ a tribo dos homens nus... São mulheres desgraçadas/ Como Agar o foi também/ Que sedentas, alquebradas/ De longe... bem longe vem... E, em meio às reminiscências, a ode vai se tornando mais lenta, mais leve, buscando nas lembranças deixadas na pátria, uma espécie de porto seguro para a solidão. Em meio à dor, lembranças sempre consolam, amenizam, apartam um pouco de nós o medo lancinante da escuridão, do esquecimento. Mas por pouco tempo. Volta logo para as cenas funerais e os horrores a que ali se prestam àqueles que Nem são livres p’ra morrer... Prende-os a mesma corrente – Férrea, lúgubre serpente – Nas roscas da escravidão. Aquilo não é um navio, aquilo é o inferno navegando pelo oceano.

     E cá estamos nós, no país da Garota de Ipanema, do Carnaval e do futebol, no país onde Lei é entendida como sugestão – salvo engano, é Luiz Fernando Veríssimo – no O Meu País, cantado por Zé Ramalho, país onde um vírus invisível está fazendo aparecer outros invisíveis, indigentes, inomináveis, inúteis. Meninos de ruas, moradores de rua, gente da rua que continuariam na bolha da invisibilidade não fosse a pandemia. Quantos navios negreiros ainda navegam pelas ruas, pelos subúrbios, pelos chiqueiros a céu aberto, pelas fendas da desigualdade social, pelas trincheiras onde inúmeros lutam para se defender da fome, pelos becos esquecidos desta nação. Destes Negreiros aportam negros, mulheres violentadas, homossexuais, crianças abusadas, meninos e meninas das cracolândias, presidiários, idosos descartáveis, presos políticos, os contrabandeados pelo mercado negro do sexo, do aborto, da mão-de-obra escrava, etc... etc... etc... E depois? Depois que o vírus for superado voltaremos à vida normal, a mesma de sempre, desconfio. Quem se preocupa em economizar água quando não há seca? Ninguém. Não aprendemos para viver, só aprendemos para sobreviver.

     Que lástima, comecei falando de cigarras, de esperança, de pássaros na janela e olha aonde fui parar. É que somos assim, voltamos ao pó rapidamente. Tudo voltará para a invisibilidade, anotem isso. Basta olhar as páginas esquecidas da História. Porém, continuaremos bradando aos quatro ventos a bandeira da esperança, ainda que Castro Alves continue ecoando, em sextas-feiras santas país afora, nos Negreiros de sempre – Existe um povo que a bandeira empresta/ P’ra encobrir tanta infâmia e cobardia!/ E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria/ Meu Deus, meu Deus/ Mas que bandeira é esta? Que impudente na gávea tripudia? Silêncio. Musa chora... e chora tanto/ Que o pavilhão se lave no teu pranto...
     Se me condenares por Castro Alves estar muito distante, aceito a crítica. Deixo, então, Manoel de Andrade em seus Poemas para a liberdade, bem mais próximo de nossos tempos, tempos nos quais ainda há ouvintes para a Canção para os homens sem face:
 
Canto a vergonha de se brasileiro num tempo defecado
canto meu povo
e se ainda não conto meu país,
é porque não sei cantar na presença de homens indecentes;
eu conta sobretudo para aqueles que preservaram seu sonho,
para os que ousaram lutar e morre por ele [...]
Eu canto para todos os homens
contudo, neste tempo,
eu canto para os homens sem face...
aqueles que se perdem na multidão das grandes cidades,
e que amadurecem, a cada dia,
os punhos para a luta.
Fernando Steffens
Enviado por Fernando Steffens em 14/05/2020
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