Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos

A poesia das lágrimas

 

Saberemos viver uma vida melhor do que esta,

quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?

(Adélia Prado, Desenredo)

 

 

     Dias atrás comemorava-se Santo Antônio, o dito santo casamenteiro. Justamente no dia anteriro, sob o olhar do padroeiro, ao qual se recorre pedindo sua intercessão, no caso de gente solteira, ou sua benção, quando o relacionamento vai bem, obrigado, foi definido o Dia dos Namorados – comercialmente interessante, diga-se de passagem. Parece-me ser mais superstição do que fé o patrocínio amoroso atribuído ao pobre santo. De sua vida pouco sabem seus devotos, do modo como amou a Cristo e aos pobres nada se diz nas propagandas, da sua brilhante e humilde intelectualidade como pregador, quem já bebeu lendo seus sermões? Toda a sua santidade fica reduzida à alcunha “santo casamenteiro”. De “martelo dos hereges”, na Idade Média, para “solução dos encalhados”, em nosso século.

 

     Mas, vamos ao que vim. Vivemos em tempos líquidos, para usar a expressão do sociólogo Zygmunt Bauman, e, também o amor corre o risco de escorrer por entre os dedos ou vazar por alguma fissura no coração. Reduz-se ele como se reduz Santo Antônio. A menos que não se perca a sua poesia. Não por acaso, pois Adélia está sempre em minha cabeceira, lendo uma poesia sua, saltou-me aos olhos uma frase. Quando me deparei com o verso, interrompi a leitura e demorei-me, pensando na beleza de uma vida conjugal madura. Concluí: aqueles que alcançam a profundidade do amor a ponto de se perguntarem: saberemos viver uma vida melhor do que esta, quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?, vivem em outro nível de amor, não liquefeito, mas profundamente sólido. Amar é um verbo, não um adjetivo. Amar é uma ação, não um sentimento barato. A capacidade de amar nenhum outro animal possui, somente o ser humano. Amar é mais do que natural instinto de proteção.

 

     ...quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos. Sabias, leitor, sabias leitora, que há quem no relacionamento, chora na solidão? Não por querer que seja assim, mas por não encontrar o ombro do amor quando dele precisa. Amar se aprende amando, diz Drummond, ao passo que Adélia acrescenta: também chorando se aprende a amar. No oceano das lágrimas, no qual todo casal um dia navega, a linguagem do choro ou se aprende juntos, ou o amor se liquefaz. Sempre haverá poesia nas lágrimas que se revelam cúmplices, que vertem aqui e lá. Deixo com Adélia uma inspiração, em igual intensidade do verso inicial: para o desejo do meu coração o mar é uma gota.

Padre Fernando Steffens
Enviado por Padre Fernando Steffens em 16/06/2023
Alterado em 16/06/2023
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