Que o sábio que daqui a dez mil anos estudar a nossa civilização extinta, aplicando-se à época da decadência, possa, lendo estas linhas de um homem amante da Tradição e da Ordem, verificar que nem todos se deixaram ir na maré, que houve uma voz que se erguesse no meio da cobardia da aceitação universal.
(Fernando Pessoa, 22/08/1914)
Digo aqui o que não convém no púlpito. Lá, sou obediente por convicção; aqui, sou livre por escolha. Lá, fiel à Palavra; aqui, submisso à escrita. Lá, imperfeito instrumento; aqui, atento observador. Infinitamente aquém da genialidade de Pessoa, mas gêmeo do seu senso crítico – ainda que o recorte acima intitule-se Crônica Decorativa –, escolho fazer parte da voz que se ergue, em nada decorativa, mas uníssona a outras, que ao verem, falam.
O que para mim desenhava-se um preocupante temor, torna-se cada vez mais um desespero quanto ao futuro. A despeito de reconhecidos benefícios, a Inteligência Artificial, a bel-prazer de néscios, vira uma tragédia. Alguém que já fazia pouco uso da inteligência natural, que já era regido pela lei do menor esforço, já covarde diante de qualquer dificuldade, já quase nada preocupado com o amanhã, já imediatista e ansioso, agora, tendo uma inteligência artificial a “substituir” a sua, atesta, indubitavelmente, que a Caixa de Pandora venceu (óbvio, ao invés de ler algo sobre mitologia grega, os adeptos da IA irão direto ao ChatGPT digitar Caixa de Pandora, para descobrir que dentro dela ficou presa toda a esperança).
Sabemos que o mundo artificial não é de hoje. Faz tempo que criamos coisas, boas e ruins, saudáveis e doentias. Contudo, terceirizar o comando da inteligência humana para uma IA, parece-me atitude pioneira. Não seria o início da desumanização? Não há, por acaso, nos bastidores disso tudo, uma idiotização do ser humano? Será que ninguém se pergunta: mas por que um Data Center tem que pensar no meu lugar? Por que uma nuvem de informações ao invés do meu cérebro pensante? Por que respostas prontas em lugar de uma reflexão crítica que posso ter?
Sinto dó das gerações Alfa e seguintes. Frágeis, inconstantes, superficiais, sem peso nos ombros, cheias de distúrbios, nutridas a dopamina, discípulas de influenciadores digitais, facilmente manipuláveis, escravas da moda, das trends. Numa sociedade avessa a princípios morais, padrões comportamentais, valores herdados, o efeito não poderia ser outro: a liquidez de tudo. E a IA é a liquidez do discernimento entre o necessário e o superficial, o real e irreal, o fato e a fantasia. A Igreja Católica já se pronunciou com a Nota Antiqua et nova, que cito: Embora a IA ‘generativa’ consiga criar textos, discursos, imagens e outros resultados avançados, ela deve ser reconhecida pelo que é: uma ferramenta, e não uma pessoa.
Concluo como comecei, com Pessoa e seus lamentos quanto aos de si contemporâneos. Ainda que mais de século depois e, como outrora, o mundo em guerra, lamentos tão atuais: É desolador este estado de coisas. Ninguém pensa para onde vai, o que será o dia de amanhã. Para alguns ele deve ser ontem. Assim passam, entre dúvidas e tédios, os nossos tristes e cansados dias.