Levei quase duas horas, entre silêncios, releituras, inquietações, buscas, até intuir, a partir do Evangelho, que o Natal é isto: o tempo de Deus chegou. Resta agora um discurso sem repetições rotuladas, sem ofensas e indiretas ao bom velhinho, que sequer existe de fato, sem aforismos pedantes ou carregados de certa apologia medieval anacrônica e vazia de encarnação. O terreno infértil dessas falas, dos chavões repetidos, dos discursos fajutos é a rede social. Pura incriatividade. Decerto há quem curta, redil do qual estou fora. Então, vamos ao que vim.
O nascimento de Jesus, enquanto tal, jamais perderá sua força. Continuará para sempre as consequências daquele Faça-se de Maria, daquele Verbo que se fez carne e habitou entre nós, daquela pobre manjedoura, berço de Deus. A Teologia dá conta de sustentar essa certeza da fé. No entanto, não passa despercebida a superficialidade com que a muito o Natal é anunciado. E, com o advento da Inteligência Artificial, mais vazio e, por suposto, mais artificial ainda se apresenta hoje. Os símbolos pagãos e comerciais, os discursos políticos e jornalísticos, os aspectos culturais e artísticos, todos eles nivelados, quando não, sobrepostos, ao sentido e significado religioso desta data litúrgica, qual seja: o nascimento de Jesus, a plenitude dos tempos, a tão aguardada vinda do Messias (ainda que em moldes nada conformes às expectativas judaicas da época).
O que sobressai hoje é o seguinte: chegou o tempo das promoções, das compras, dos presentes, do décimo terceiro, das férias, das viagens, das festas, da praia, do pisca-pisca, do Papai Noel, das mais diversas campanhas solidárias (tantas vezes apenas para merchandising próprio ou institucional), dos panetones, dos chocolates, das doações de roupas não mais usadas, dos votos de feliz natal e próspero ano novo a quem quer que seja... Chegou o tempo de muita coisa e tudo isso empobrece, disfarça, camufla, quase que anula o real significado do Natal: o tempo de Deus que chegou. Tempo este não como categoria mecânica que pontua a História. Tempo este não reduzido a contagem das horas, dos dias ou dos anos. Não o tempo do relógio, do calendário, da agenda. Mas sim, tempo enquanto acontecimento que ressignifica tudo. Tempo de uma presença que jamais se ausentará. Tempo que mais se aproxima de um estado de espírito, dum jeito de viver, duma experiência transformadora. Tempo de Natal, tempo de Deus em nossas vidas.
O 25 de dezembro nos lembra, sim, que Nosso Senhor Jesus Cristo, morto e ressuscitado, Aquele em quem depositamos toda a nossa confiança, um dia nasceu em Belém, na Judeia, como acontece com qualquer ser humano que vem a este mundo. No entanto, é uma pena que, equivocadamente, acabamos celebrando o Natal não como memória litúrgica, de fato, mas como se aquela criança fosse nascer outra vez do ventre de sua mãe. E, assim, o Natal vira apenas um parto, Jesus volta a ser bebê todos os anos, e dias 26, 27, 28... já não é mais Natal... Resta agora aguardar 25 de dezembro do ano que vem para um novo Natal. Confesso que não sei se algum dia superaremos essa mentalidade infantil.
Por isso, pensar o Natal como o tempo de Deus chegou tira o foco do calendário e abre o horizonte da espiritualidade, da mística, do sobrenatural pelo qual é envolto este evento salvífico. E, a partir disto, podemos pensar: qual o tempo de Deus que precisa chegar na vida de uma pessoa acamada, ou doente, ou solitária, ou enlutada, ou triste, ou viciada, ou presa, ou desempregada... Qual o tempo de Deus que chegou na vida de um casal apaixonado, ou recém-casado, ou que espera sua criança nascer... Qual o tempo de Deus para alguém que falta pouco para alcançar um objetivo, ou que por pouco não chegou lá e terá que recomeçar tudo...
Com que qualidade o tempo de Deus é saboreado em tempos tão estranhos e difíceis como os nossos? Se João Batista pregava que o tempo de Deus estava próximo, Jesus, com seu Natal, nos diz: o tempo de Deus chegou. O Natal não está na estética deste período, não está no que enche os olhos de ilusório brilho. O Natal é o encontro do nosso tempo com o tempo de Deus. E isto está para muito além de um 25 de dezembro desembrulhado todos os anos. Celebrar o Natal como tempo de Deus que chegou é um pouco mais exigente, mas vale a pena tentar.