Pensar incomoda como andar à chuva [...]
E a criança tão humana que é divina
É esta minha cotidiana vida de poeta [...]
(Fernando Pessoa,
O guardador de rebanhos, I e VIII)
Ontem brinquei de procurar chuva com minha sobrinha. Eu, quase quarenta, ela, apenas cinco primaveras. Como é próprio do universo das crianças, a espontânea criatividade, a mente fértil, a capacidade incrível de dar vida ao imaginário, nos levou ao que não estava no roteiro: procurar chuva. Isso mesmo! É o tipo de coisa que simplesmente acontece, não se explica. No entanto, para que entendas, é necessário explicar. A certa hora da tarde começou a chuviscar devagarinho. Todos fastiados do almoço de domingo, um esticado num canto, outro noutro, a tarde igualmente preguiçosa, o calor que deixava tudo mais vagaroso e aquela chuvinha abençoada benvinda em hora certa. A minha sobrinha, de chofre: mãe, posso brincar na chuva? Autorização concedida, aproveitei o embalo. A sensação térmica que beirava os quarenta graus foi deliciosamente aliviada. Naquele momento a gente não precisava de mais nada pra ser feliz. Só que chuvisco de verão é coisa rápida, começa de repente e termina de repente. E assim aconteceu. Entre um pingo e outro que tinha se esquecido de cair, Alana e eu ficamos por ali, ingenuamente conversando com o céu: vem chuva, vem chuva, chove mais um pouquinho, só mais um pouquinho. Como pelo visto nossa prece não seria atendida, fomos procurar outra coisa pra fazer. Foi então que, despretensiosamente, sacudi a árvore debaixo da qual estavámos e, Eureca!, encontramos a chuva. A alegria inocente, a plenitude daquele instante, a simplicidade com que tudo se deu, era como se Deus mesmo brincasse com a gente ou nos deixássemos ser deuses, criando o que não está ao nosso alcance, sei lá. Aquele herético menino Jesus de O Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa, parecia se fazer presente entre nós. Daí em diante fomos de pé em pé, de galhada em galhada, à procura da chuva. E não tenham dúvidas, desconfiados leitores, para minha sobrinha, era chuva de verdade.
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Parece-me não ser muito possível, sequer honesto, falar dos nossos tempos em tons somente animadores, otimistas, inspirados na doce ilusão de que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Há um cem número de fatos que apontam o contrário. Se fosse possível colocar tudo numa balança, prós e contras, confesso: não sei para que lado pesariam mais as coisas. Tomás Halík, em seu título Não sem esperança, defende a ideia de que não devemos nem ser otimistas ingênuos, na “suposição ousada de que tudo ficará bem”, nem quedar ao pessimismo amargurado que coloca a milhas de distância a promessa de um final feliz. “Muitas vezes, o pessimismo nada mais é do que a ressaca de otimistas desiludidos”. Resta o que, então? “Por onde devemos recomeçar [...] se quisermos tentar encontrar a chave perdida da esperança?”, pergunta-se, pergunta-nos o padre Halík. A resposta é dada no final do primeiro parágrafo do livro: “Pessoas de esperança são apenas aquelas que não se conformam ao mundo em sua forma atual.” Simples, prudente, assertivo, realista. Mas o que isso tem a ver com procurar chuva? Creio que o seguinte: nem ficar só esperando que volte a chover do céu, nem se conformar que não choverá mais na terra. Aquela criança brincando na chuva me levou a descobrir que existe uma esperança que não se conforma nem às fatalidades nem às impotências. Aquela criança brincando na chuva, procurando a chuva, encontrando a chuva planta sementes sem saber. Quando não há, é preciso procurar, ao invés de reclamar e conformar-se. Quando não há, é preciso procurar, ao invés de apenas sentar-se e esperar, iludindo-se. Afinal, “a felicidade é para depois de muito custo. Mas que custe é inevitável” (Valter Hugo Mãe, Deus na escuridão). Minha sobrinha não se conformou que a chuva se tinha ido. Sem saber, eu também não. E outra vez entendi: quem não se tornar como esta criança não entra no reino dos céus. O pessimista, um conformado. O otimista, um falsário. Quem tem esperança, procura chuva. Feliz 2026!!!