Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos

Escrever é aprender a ter paciência

 

Somente na velhice conseguimos ver a raridade do que é belo

e o verdadeiro milagre que ocorre quando

entre fábricas e canhões

 também vicejam flores,

e entre jornais e papéis da bolsa

ainda há poesias.

(Hermann Hesse)

 

 

     A certa altura da conversa eu perguntei: “E a fé, como ficou?” De pronto, a resposta veio: “A fé ficou a mesma, com perna ou sem perna.” A leveza do olhar, a serenidade da fala e o constante estado de sorriso testemunhavam que dizia a verdade. A prosa continuou, mas confesso que suas palavras cravaram fundo em mim. Sabe quando alguém diz algo que você não espera, não está preparado para tanto, algo que te impacta e te deixa boquiaberto. Pois foi assim. Por mais que a tarde estivesse chuvosa, aquela resposta descortinou o céu, como que trazendo de volta a luz do sol. “A fé continua a mesma, com perna ou sem perna.” E olha que em menos de um ano, já avançados os seus setenta, não só uma, mas, as duas agora lhe faltavam. Conheço muitos que por muito menos fizeram de Deus seu bode expiatório e lavaram as mãos, deserdaram da fé, justificaram sua revolta, declinaram da vida. Quantas vezes eu mesmo outorguei-me o direito a reclamações ridículas, a lamúrias intermináveis, a vitimismos e caprichos injustificáveis.

 

.....

[alguns meses depois]

 

     Não fosse eu ter registrado na ocasião esta experiência, facilmente eu já a teria esquecido. Retornando aos tantos textos incompletos, arquivados em meu notebook, a vontade de continuá-lo pediu passagem. E me vem à mente isto: escrever é aprender a ter paciência. Não sei se contigo também é assim, mas, quando estou lendo um livro dá a impressão de que é tão fácil escrever. Parece que o texto vai se digitando sozinho. Já quando sento aqui e quero escrever algo, uma angústia, uma demora, a mente em branco, uma dificuldade enorme de passar ao papel o que está na alma. Escrever é um sofrimento que só! Escrever é aprender a ter paciência. Há mais demora entre uma frase e outra do que quem lê possa imaginar. Até porque não se trata apenas de escrever, mas de escrever algo que tenha sentido, que diga alguma coisa de útil. Afinal, de discursos imbecis o mundo já está cheio. Um escritor que se preze há de se colocar no lugar de sua leitora, do seu leitor, a fim de esquivar-se, ao menos de duas coisas: do ridículo e do vazio. No mínimo, precisa ser bom para ele o que pretende dizer aos outros. De mais a mais, é como diz Mário Quintana: um texto precisa ser escrito várias vezes para dar a impressão de que foi escrito pela primeira vez. Trata-se de esforço, ainda que nem sempre o resultado seja o desejado.

 

     Ainda assim, vale à pena o registro, senão por outros motivos, vale pelo simples prazer da escrita. Basta isto? Não. Há também o desejo de que alguém leia e se apraze igualmente. Não é ego. É realização. A experiência que tocou a minha alma é agora descrita, o quanto possível em linhas poéticas, e quem a lê sente alguma coisa que eu desconheço. Que fascinante mistério! É isso que sinto ao ler um bom texto. Estou, por exemplo, com Hermann Hesse (1877-1962) aberto sobre a mesa, degustando cada linha, cada reflexão, cada conselho, cada gota de sabedoria que se respinga. O título da obra é Com a maturidade fica-se mais jovem. Uma série de textos e poesias escritos na velhice, devedores não só da bagagem acumulada ao longo da sua vida, uma vez que, como ele mesmo poetiza, De muitas estradas o pó da terra/ sobre os cabelos lhe passou, senão, também, dos dias vividos ao sabor da própria velhice – Gente grande morre/ Morrem o avô e o tio/ E eu, eu vou ficando/ Anos e anos a fio. Ainda restam algumas páginas para terminar a leitura, mas quanto já ganhamos os que leram o livro. Se Hesse tivesse se furtado à escrita, ele próprio talvez não tivesse se dado conta de tantas coisas. E nós que o folheamos, também não.

 

     Anos depois de Hesse, a frase de uma senhora me impactou. Anos depois de Hesse eu decidi registrar a experiência. Anos depois de Hesse, eu li a sua obra. Meses depois de tudo isso, concluo o texto. Escrever é aprender a ter paciência. Quanto ao que escrevi, julgo totalmente verdadeiro. Se útil a alguém, não sei.

Padre Fernando Steffens
Enviado por Padre Fernando Steffens em 14/01/2026
Alterado em 14/01/2026
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