I - De repente
um espelho me olhou
II – Olhei-me no espelho
vi-me dentro de meus olhos
III – As verdades e as mentiras de um espelho
são iguais as que há dentro de quem se vê
IV – Diante de um espelho
um olho enxerga o outro
V – As coisas dentro do espelho
não produzem som algum – mas dizem.
VI – Um espelho é um perfeito teatro de mímica
VII – Um espelho não escuta
VIII – O espelho não fala
mas também não mente
IX – Depois de três minutos
diante do espelho,
começa-se a enxergar dentro
X – Entre dois espelhos
faz-se o infinito
XI – Em frente ao espelho,
um profundo silêncio.
E na alma, uma lágrima escorre
XII – Imaginei o julgamento assim:
eu diante do meu espelho.
Nele, a imagem do que eu era para ter sido
e em mim, apenas lágrimas.
Qualquer áurea de Amor
envolvia nós dois,
aproximando-nos,
num movimento que não sabia ser lento ou veloz,
até nos tornarmos um só,
feito à imagem e semelhança.
Aquele Amor era como a Sarça,
experimentada por Moisés.
Um fogo que ardia e doía
como só o Amor dói.
Eu ouvia um
“ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.
Queria perguntar,
mas só saia de meus lábios
“Fazei isso em memória de mim”.
Apaguei a luz.
Apenas uma réstia de luz
vinda de fora.
O inferno é a procura
desesperada por um rosto
encontrado apenas
à luz de uma chama
(que agora...)