Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos

Diários apócrifos de Betânia — segunda-feira

 

     Minha perna estava mancando um pouco hoje, acho que andamos bastante ontem ou foi porque acabei me machucando no Templo, no meu acesso de fúria. Mas era preciso. São momentos muito decisivos os desses dias e sinto que a radicalidade se mostra mais necessária do que nunca. O zelo por tua casa me consome.

 

     Mas a janta de hoje me fez outra vez mais experimentar o amor. O odor do perfume que Maria derramou em meus pés encheu a casa de Deus. Lembrei do tempo das colheitas quando um dia, passando por meio dos trigais consegui sentir neles o cheiro do pão que a mãe fazia em Nazaré. Ela amassava a farinha com um amor, uma leveza, uma ternura digna da mãe de Deus. Parecia que o Reino mesmo em todo o seu mistério ia acontecendo naquela arte de misturar o trigo, o fermento, depois esperar o tempo para ir ao fogo, até que aquele aroma enchesse a gente de fome. José era realmente um homem feliz. Ser justo lhe trouxe uma recompensa merecida. Naquela ocasião, nos trigais, falei também sobre os lírios do campo, sobre os pardais, sobre as árvores em pleno outono, usei a natureza para catequizar os doze. Lembro de umas caras estranhas, sem entender muita coisa do que eu dizia. Essa reação deles sempre foi meu dilema.

 

     Enfim, aqui estamos, em Betânia. E Judas, como sempre, interessado em outras coisas. Há nele um pensamento um pouco mesquinho, pequeno, distante da vontade do Pai. Eu respeito, compreendo, amo ele igualmente, mas seus ideais estão um pouco distantes dos que propus nesse tempo – na verdade, ele nunca se abriu muito para um ensinamento novo. Mas há força dentro dele e isto é fundamental, o que falta é disciplina, discernimento, caridade, desapego. E não são coisas simples de se alcançar quando não se está por inteiro na causa. Lutar contra si mesmo é a pior das guerras, e perder para si próprio o pior dos fracassos. Nesse sentido, temo por ele. Por não ter entendido, pode usar mau a liberdade. Por não ser livre, temo acabe cometendo algum equívoco... Tudo está nas mãos do Pai. Confio nele, sempre. Ele é bom, sempre.

 

     E o alabastro. Ah, aquele alabastro perfumado. Se o fantasma da agonia já consigo senti-lo, hoje, bem mais do que os olhares de ontem, a delicadeza do amor me consolou. Deveria ser assim com todos. Sempre houve e sempre haverá medos, fantasmas, morte – isto é fato consumado. Mas havendo sempre o amor, nada poderá nos vencer. É o que senti hoje e se disse o que disse a Judas foi na tentativa, quase vã, de mostrar que enquanto o amor estiver presente é preciso saboreá-lo, sentir sua fragrância, não descuidar dele, reconhecer seu valor entre as demais coisas. Não é tão somente o dinheiro que alimenta, que livra da pobreza. Existem outras fomes, outras misérias. Três anos passando por aqui, dormindo nesse lar abençoado, encontrando abrigo, aconchego, sem riqueza nenhuma, mas com uma nobreza invejável, divina eu afirmo, e Judas entretido com a bolsa. Ele ainda está cego. Até Mateus já superou o apego. Até Zaqueu entendeu que era preciso mudar. Mas não vou desistir de ti, Judas, por amor irei até o fim, mesmo que não entendas, mesmo que não queiras, mesmo que não te convenças. Meu olhar sempre te procurará, mesmo que falte só a ti no aprisco. Se o perfume de hoje invadiu toda a casa ele te inebriou deveras, tu saíste mais perfumado do que quando entraste. Por onde quer que andares, deixarás um rastro para que eu te alcance. E, sendo preciso, o farei.

Padre Fernando Steffens
Enviado por Padre Fernando Steffens em 30/03/2026
Alterado em 30/03/2026
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