Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos

Diários apócrifos de Betânia — terça-feira

 

     Acho que foi a terceira ou quarta vez que precisei ser rude com Pedro. É para o seu bem. Sinto que ele está preparado, amadureceu muito desde que o encontrei naquela manhã, na beira do lago. Na ocasião, a noite não tinha sido de boa pescaria. Arrisquei desafiá-lo: jogue mais para o fundo. Ele fez cara de quem não gostou muito, olhou-me de soslaio e continuou recolhendo as redes, bronco. Todos em silêncio e eu ali, olhando-o e escrevendo na areia. Acredito que foi meu silêncio que o incomodou. Mas também fui teimoso, não baixei guarda no olhar. Eu sentia ternura nele, havia uma delicadeza e um amor no trato com as redes que não sei explicar. Era como se elas não fossem em momento algum alvo da sua frustação por causa da pesca sem resultado, era como se ele reconhecesse o valor que elas tinham em si mesmas. Porém, determinante para mim foi a sua resposta: em atenção a tua palavra, vou lançar as redes. Eles já tinham guardado praticamente tudo, desejosos de voltar para casa devido ao cansaço, a fome, o sono, as preocupações com a família, a sogra dele doente, e mesmo assim, tomou a frente e avançou mar a dentro. Foi a resposta que eu precisava, depois o tempo faria o resto.

 

     Hoje, na ceia, é claro que o clima favorecia a sua coragem sem limites, sua intrepidez condizente com o nome que lhe dei, seu coração forte para a batalha, sempre pronto para o combate. É o Pedro, é ele, é assim. Seu gênio, seu temperamento, meio indomável. Ainda mais depois do que falei, em relação a alguém me entregar. Eu darei a minha vida por ti. Se tivesse uma espada, teria encenado, erguendo-a ao mesmo tempo que declamava sua fidelidade até a morte, igual os soldados romanos para com César. Mas eu conheço os meus, sei o que se passa em seus corações. Sei que em algum momento podem fraquejar, sentirem-se acuados. A tentação de negar parece que já nasceu com Adão. Os homens são sempre crianças se escondendo, como se fosse possível esconder-se de si mesmos. É verdade que, sendo três vezes, há espaço para a consciência entre uma e outra, ainda mais quando já se sabe do risco que se corre. Porém, são de barro, o Pai os fez assim e é assim que eu os trato. Fico pensando como terá sido difícil para minha mãe. Poucas vezes conversamos sobre isso, mas, é algo que sempre carreguei comigo, o seu sim e a sua fidelidade. Eu aprendi a respeitá-la no seu silêncio. Ele já me falou mais do que ela possa imaginar. Sempre admirei essa virtude nela.

 

     Enfim, não foi uma noite fácil. Agora é um dia a menos para a Páscoa, a passagem da morte para a vida, da escravidão para a liberdade, a memória da minha fé, da fé do meu povo. Já começo a pensar nas palavras que irei dizer a eles, nos gestos que irão escandalizar, mas depois compreenderão. Vou dormir com a imagem do rosto de João quando lhe falei quem seria. Foi um olhar que misturou raiva, indignação, incredulidade, angústia, decepção... O que estará pensando ele, agora? Como irá conviver com essa traição martelando sua cabeça? Bem, ele presenciou mais coisas que Judas e os outros, ele é jovem e saberá discernir, tenho certeza. Era preciso dar a mais alguém a chance de conviver com essa dor. “Abba, o tempo se aproxima, não me abandones nessa hora, pois foi para essa hora que eu vim. Tu os destes a mim, fiz de tudo para que eles te conhecessem. Apresentei-te como um Pai e mostrei a eles como é ser filho. Quero permanecer fiel até o fim. Estou aqui. Estou pronto. Eu entrego a minha vida.”

Padre Fernando Steffens
Enviado por Padre Fernando Steffens em 31/03/2026
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