Diários apócrifos de Betânia — quarta-feira
Imagino que os artistas – músicos, escultores, atores, poetas – irão retratar com uma riqueza de detalhes minuciosa os fatos desses dias, como fizeram até os dias de hoje a respeitos das grandes tragédias e odisseias já vividas pela humanidade. Ora eu, ora Judas, ora Pedro, ora os olhos arregalados dos outros, nem eu sei, mas personagens para as cenas não faltarão. E para quem tem dons artísticos a imaginação lhes é muito fértil. O Templo é prova artística, arquitetônica, religiosa disso. Uma grande construção, pensada a partir dos detalhes, da liturgia, da centralidade divina. Mas nada que se compare a arquitetura interior de cada um, desde Judas até Nicodemos, desde Pedro a Maria Madalena, desde Tomé até Abraão, desde minha mãe até a Sara da Torá. E sem entender isso, essa modelagem interior, o externo de pouco adianta. Em lugar do Templo, tão importante para nossa fé, para as peregrinações destes dias, para os sacrifícios oferecidos, em seu lugar interessa mais os corações. Quando escolhi a casa para cear com eles nesta noite, meu pensamento se voltava para o que aconteceu ali a três anos.
Sempre achei muito profunda as festas de casamento, as bodas, as danças, a alegria que nelas se experimenta. Naquela ocasião tudo isso estava ameaçado pelo vinho que se acabava. Recordo que quando minha mãe disse que era para fazer tudo o que eu dissesse alguma coisa aconteceu em mim. Disfarcei e saí para o pátio – era uma noite como esta – e me demorei. Era como se naquela ordem dada aos servos, havia implícita uma vontade que vinha do alto em minha direção. Hoje entendo que o silêncio daquele primeiro sim continha silêncios que eu precisaria aprender a ouvir, discernir, acolher. Como eu dizia ontem, o seu silêncio materno já me falou muito. Nossos sins sempre foram uníssonos. Não teria como ser diferente. E estando novamente naquela sala, durante a ceia, essa lembrança foi contínua. Quando um lugar, por algum motivo, é transportado para dentro de nós e ali permanece, ao se encontrarem mais à frente, aquele mesmo espaço com a sua lembrança e habitarem juntos por um momento, nunca sabemos o que poderá acontecer. Penso em Abraão subindo outra vez o monte, mas sem Isaac, nele apenas a lembrança de tudo o que se passou. Foi um pouco isso que experimentei.
Quando eles me perguntaram, todos eles, mesmo Judas que a tempos já estava decidido, sou eu, sou eu, sou eu?, creio que é porque tomaram um pouco mais de consciência da gravidade das coisas que estão por vir. É dentro de cada um que devem buscar as respostas. Não se trata apenas dessa noite ou da próxima. Trata-se de toda a vida, de todas as escolhas, de todo o uso que fazem da liberdade que o Pai deu a cada um. Sempre os adverti quanto ao dinheiro, a busca pelos primeiros lugares, o desejo de recompensas, o servir a mais senhores. Deixei claro que isso não é compatível com o projeto do Reino. O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele. A meu respeito. Eu preciso saber o que é para mim, eles precisam saber o que é deles e para eles. E é dentro que vão descobrir, não no Templo, nem só na Lei.
Quanto ao meu interior, uma mistura de expectativa e medo a cada instante torna-se mais patente. Amanhã será um dia longo e já sinto uma alegria imensa pela vida que ofertarei. Estou mais pleno do que nunca do teu amor, Pai. Deixarei aquilo que farão depois em minha memória, para que eu permaneça para sempre com eles, nas mãos, nas palavras, no coração dos que atrairemos. Seja feita a tua vontade.