Diários apócrifos de Betânia — quinta-feira
Começou o silêncio de Deus.
A lua cheia anuncia que a Páscoa será dentro de dois dias. Sinto palpitações, suo frio, um frêmito de dor invade meu peito, a angústia da morte consome até meus ossos. Só me resta confiar. Abba, em tuas mãos entrego minha vida. Quando lavei os pés deles – o silêncio cortado apenas pela intervenção de Pedro, sempre Pedro – descobri calos que nem eu imaginava que tinham. Lembrei de quando me trouxeram um paralítico, descido pelo telhado. Fiquei pensando onde estaria ele agora, será que também teria calos nos pés de tanto andar, já que passara a vida toda numa cama. Do quanto conheci das pessoas, percebo que o esforço por recuperar algo que perderam é algo impressionante. Quando contei à multidão uma parábola sobre um filho pródigo era um pouco disso que eu queria falar. Aquele filho mais moço criou calos nos pés de tanto ir para longe, caminhar para muito distante – e quando se está indo, facilmente se esquece que voltar é mais demorado. Embora o trajeto seja o mesmo, o cansaço pesa, os calos doem.
As marcas que alguns pés traziam me comoveram. Foram três anos intensos, de muitas idas e vindas, de muitas noites ao relento – nem sempre havia Martas, Marias e Lázaros para nos acolher. Dias atravessando desertos e cidades, noites enfrentando tempestades em alto mar, a jornada foi dura para eles. O pão e o vinho, coisas tão nossas e tão essenciais, serão sempre meu corpo e meu sangue desde que sejam trazidas por pés calejados. Não serei só eu o responsável por manter pão na mesa, vinho no cálice. Quando compreenderem o que eu fiz essa noite, irão entender que meu corpo, meu sangue serão pão e vinho porque o esforço que cada um empreendeu processou a matéria prima da vida. A espiga crua foi amassada e levada ao forno como pão, a uva casta foi pisada e deu seu vinho. Foi dado para a salvação do mundo porque no perder é que se ganha. Perder a espiga, perder o cacho, morrer um e outro para deles nascer outra coisa.
Senti falta da minha mãe. Mas não uma falta apenas da presença física, é mais do que isso. Ontem ela comentou que quer voltar logo para Nazaré. Por mais que sua fé seja profunda, a Páscoa com as suas procissões, os ritos, a viajem em si, tudo se torna exaustivo. Eu entendo. Demos boas risadas quando lembramos da Páscoa em que me esqueceram em Jerusalém. Foi um desespero, uma angustia. Pensei que tinha te perdido para sempre – foram as palavras dela, em meio a risos e um olhar que anunciava alguma coisa, alguma dor. Não quis comentar, mas lembrei da profecia de Ana, cujo tempo se aproxima.
O silêncio da noite se mistura com o silêncio de Deus. Olho mais uma vez para a lua, testemunha fiel de tudo o que acontecerá. A Torá diz que ela e o sol foram criados no quarto dia. E que ela foi feita para guiar a noite. Ao amanhecer, brilhará a estrela da manhã, que sempre fica a noite toda aguardando para anunciar a aurora e, ato contínuo, o sol despontará, pois foi feito para guiar o dia. Mas nesta quarta noite, como no início de tudo, é a Lua que me faz companhia. Ela vê o meu pranto, ela ouve minha prece, ela quase sente meu sofrimento. Se eu suasse sangue, cada gota refletiria sua presença. Se o sol traz consigo um brilho divino, a lua mais se parece com a luz humana. Para ela se olha sem que a vista cegue. Pai, na companhia de cada um dos que me deste, quero viver cada momento. Seus calos desejo sejam também os meus. Suas cruzes desejo sejam a minha. Seja feita a tua vontade.