Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos

Diários apócrifos de Betânia — sexta-feira

 

     Anoiteceu. Acabou. O espetáculo vil e infame reserva ainda uma última cena. Resta a cruz e nela todo o pesar e toda a esperança. Em gestos solenes e fúnebres, é descido o corpo pendido no lenho. Outra vez um José em sua vida, o de Arimateia. Se um justo havia dado a ele um nome, uma família, um lar, este dá-lhe agora a dignidade de uma sepultura, movido pelo temor que lhe dispensava.

 

     Não há aspecto divino nele, não há encanto, algo que seduza. Se há beleza ela está no olhar de quem compreende o mistério que se desprendia dos ais. Há sacrifício e vida, tão somente. Sacrifício porque tudo o que fez não foi para si, pois sem louros, sem aplausos, desprovido de força, de argumentos, de álibi. Isaías desenhara seu semblante bem antes e não houve sorte que o impedisse de sua sina. Graças a Deus! E Vida porque uma cruz, depois que Deus passou por ela, uma cruz sempre será a possibilidade da conversão, do retorno, de um outro trajeto, de outro significado, de outra dor e de outra vida. A cruz passa a ser um argumento em prol.

 

     A morte veio buscar o dono da vida. Veio acomodá-lo em seus braços. À parte a violência que padeceu, até a morte foi caridosa consigo, privou-lhe sofrimentos e agonias que poderiam durar horas intermináveis, como outros crucificados já experimentaram. A sua foi rápida, a ponto até de surpreender Pilatos. Ah!, Pilatos. Apenas morrera, tão logo seu nome e seu feito já circulava novamente em meio aos seus algozes. Em breve, em suas consciências.

Durante o trajeto, um cireneu o ajuda. Apanhado de roldão, foi quem mais de perto sentiu sua ofegância, encarou seu olhar, insistiu que continuasse – ou para que o sofrimento tivesse logo um fim, ou para ele mesmo se livrar daquele infortúnio, ou porque alguma coisa o tocou, como fosse o inverso daquele dia em que alguém tocou nele, não sem ser percebida. Hoje alguém que nem estava ontem conosco na ceia, lavou-lhe os pés. Quando, certa vez, ele elencava aquela litania de deveres de casa – a sede, a fome, a doença, a nudez, o estrangeiro, o preso – talvez devesse ter incluído eu estava sujo e me lavaste os pés. Seja qual for a cruz que alguém carregue, sempre estará lavando os pés dele em alguém.

 

     Já pela manhã eram mãos que se lavavam. E nas de Pilatos, as de todos que o trocaram por Barrabás. Os pudores podem ser traiçoeiros, levianos, hipócritas. Sempre foram muito preocupados com as higienes corporais externas, com os escrúpulos da Lei, e mais uma série de desnecessidades. Óbvio que prefeririam as barganhas políticas, as comodidades religiosas, as próprias interpretações ao ensinamento de um pobre de Nazaré. Com muitos será assim.

 

     Tudo está consumado. O ardente desejo de comer a ceia encontra seu ocaso neste mundo. A ceia era o início da consumação. Agora tudo está prestes a fazer novo sentido. E outra vez tudo se faz silêncio, espera, paixão – coisas essenciais para o amor. Há ainda algo que ele me disse quando sussurrou que seria Judas o traidor, e é essa a certeza que me sustenta. Sou apenas um discípulo amado, nunca órfão diante da cruz e que deixa seu testemunho, como uma espécie de Diário de Betânia destes últimos dias que preparam outros que hão de vir.

Padre Fernando Steffens
Enviado por Padre Fernando Steffens em 03/04/2026
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