Pe. Fernando Steffens
A poesia deixa a vida mais leve...
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Textos

Diários apócrifos de Betânia — sábado

 

 

     Voltei lá. Eu precisava saber o que havia restado nela. Se nas batalhas romanas há corpos sem sepulturas, ali havia uma cruz sem seu corpo. Da intimidade tão profunda que ontem parecia haver entre eles – eram um, feito mãe e filho –, deparava-me agora com o vazio. Mas era outro vazio, difícil de explicar. Havia nela alguma espécie de sede e ares de ternura e em mim, o amargor do fel, da incompreensão, de um arrependimento por pensar que deveria ter feito alguma coisa, tudo misturado à lembrança consoladora dos seus abraços e sorrisos. Eu precisava voltar lá para não esquecer. Mas como é cruel essa hora. Sua mãe – minha agora também – falou um dia sobre uma espada de dor que constantemente parecia rasgar seu peito. Era exatamente o que eu sentia. E as lembranças se alternavam dentro de mim, sem ordem cronológica, sem respeitar o luto, sem medo. Parecia que elas iam ressuscitando ele, pouco a pouco, dentro de mim. Suas palavras, seus gestos, a seriedade de seu semblante, as preocupações que partilhava, seus ouvidos atentos, igualmente o olhar, tudo foi ganhando vida novamente. Fui colhendo memórias como quem sai a recolher as folhas que o vento dispersa depois que o outono as fez cair. As palavras da ceia ressoaram fortes – fazei isto em minha memória. A impressão que tive era de que um evangelho, uma boa nova ia se escrevendo no meu interior, simultâneo às recordações que me habitavam. O vazio que não sei explicar, sem deixar de sê-lo ia se enchendo de mistério. Mais tarde compreenderás – ele disse para Pedro, mas era para mim também. E chegou tão sedo o que era para ser mais tarde. Fazei isso em memória de mim.

 

     Era como se a morte e não ele tivesse sido derrotada. A passos largos corri ao túmulo. A pedra o tampava. Permaneci ali por longo tempo. As memórias ainda me acompanhavam. Lembrei o dia em que João Batista falou dele. Aquele dedo apontando em sua direção era igual uma flecha, que após mirada pelo arqueiro, acertava em cheio o seu alvo. Fomos, indistintamente. O que procurais? – foi o que nos perguntou, voltando-se repentinamente em nossa direção. Um susto. Não esperávamos por aquilo. André falou alguma coisa que não me lembro. Sei que ele disse vinde e vede. Essas palavras nunca mais deixei de ouvir. Vinde e vede! Foram elas que hoje de manhã me levaram até lá, em seguida ao túmulo. Vinde e vede! E eu fui. E eu vi.

 

     Não sei como será daqui em diante. Melhor, não sabemos. O que faremos, quem tomará a frente. Penso que Pedro seja o mais indicado. Um dia depois da morte ainda é um dia sem chão. Como Maria nos ajudará, ou seremos nós a ajudá-la, uma incógnita. Enfim, tudo confuso ainda. O que a multidão toda esperará de nós? Eles sabem que sempre o seguimos mais de perto, eles sabem que fomos, por assim dizer, escolhidos por ele. E pelo nome. Quando nos ensinou a rezar disse que era para pedir ao Pai que fosse feita sempre a sua vontade, não a nossa, e que entre nós houvesse perdão. Pai nosso que estás nos céus, santificado seja teu nome, venha teu reino, seja feita a tua vontade. O pão de cada dia dai a nós hoje, perdoa nossas dívidas como também perdoamos o próximo, livra-nos das tentações e do mal.

 

     Alguma coisa aconteceu, é a única definição que posso dar do dia de hoje. Sou muito jovem ainda para compreender melhor. Se um dia eu for capaz, deixarei escrito como forma de gratidão por tudo aquilo que experimentei nesta manhã, tão preciosa, tão silenciosa, tão misteriosa.

Padre Fernando Steffens
Enviado por Padre Fernando Steffens em 05/04/2026
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