Diários apócrifos de Betânia — Domingo
Enquanto eu arrumava os panos e os deixava em ordem, dobrando-os com delicadeza, como alguém que prepara a casa para receber amigos – foi o modo que encontrei para dizer a eles que não houvera roubo, a harmonia é um bom sinal de vida, sempre –, intuí que ela seria a primeira a vir. Depois de minha mãe e ao lado de Marta e Maria, Madalena foi uma mulher especial. Aprendeu o que é ter fé. Aprendeu a enfrentar e vencer inimigos, internos e externos. Nunca foi bem aceita pelos doze, mas, ao mesmo tempo, os desconcertava com sua fidelidade. Não tinha medo, era intrépida, dona de si, mas sei que carregava dores difíceis em seu coração, em suas lembranças. Amargos que a vida reserva a todos. Contudo, revelou-se, dia após dia, mulher de fibra, ousada. Era generosa, sua maior virtude. Tinha motivos de sobra para recusar ser desse jeito, mas deixou-se envolver pelo amor que lhe dei e descobriu que havia outra vida, outo modo de ser, outra estrada que pudesse trilhar.
É uma verdade eterna que momentos importantes da vida pedem a presença de duas pessoas: uma materna e uma amiga. Não seria diferente no amanhecer deste dia, o mais importante de todos os dias que jamais houve. Uma presença amiga, não só, amorosa. O Pai me deu a alegria de ter sempre presentes tanto uma quanto a outra presença, porém, em Madalena sempre houve algo diferente. Quando cruzei com seu olhar pela primeira vez, foi apenas de soslaio. O dia tinha sido longo, eu estava cansado, os doze também. Retornávamos da Judéia para a Galileia, preferi passar pela Samaria, o que de certa forma tornou mais exaustiva a viagem. Aquele poço, eu diria, salvou nossas vidas. Mais tarde ela confessou que tinha sido aquele olhar, meio gatuno, que mudou a sua vida. Disse que nunca ninguém a tinha olhado daquele jeito e que dali em diante não queria mais perdê-lo de vista. Madalena aprendeu a amar.
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Uma vez nem eu mesma sabia quem eu era. Havia um vazio aqui dentro, cuja explicação me fugia. Era como se os demônios me possuíssem, me enlouquecessem, roubassem de mim tudo, absolutamente tudo. Sempre acreditei no Senhor. Não acreditar em Iahweh é um ato desumano. Os ensinamentos de Moisés, dos Profetas, a Lei, nunca fui indiferente a nada disso. A verdade, porém, é que eu era habitada pelo vazio. Mágoas, rancores, desilusões, desamor, sem carinho, sem sonhos, sem esperança... A única certeza que eu tinha era a de que Ele existia, só não sabia onde e nem como encontrá-lo. Todos temos uma história para contar e Ele sempre estará presente, nem que seja pela sua ausência. Espera no Senhor e tem coragem. Se eu tivesse que escolher um versículo da Sagrada Escritura para mim seria este que Davi canta no salmo.
Hoje pela manhã, diante do túmulo, ao ver que a pedra havia sido tirada, por um instante foi como se o tempo tivesse parado e o que experimentei não cabe nas palavras. De imediato lembrei do Salmo – Espera no Senhor e tem coragem – e foi como se meu coração respondesse: o tempo da espera findou. O vazio de uma vida toda desapareceu, sem sequer deixar sombra. O vazio daquele túmulo preencheu minha vida de uma presença que até agora se faz clara e misteriosa. Desde a crucificação de sexta-feira que as lágrimas eram as companheiras. Mas hoje de manhã tive uma certeza tão grande, tão real, tão alegre de sua presença, como nunca havia sentido antes. Voltei na memória àquele primeiro olhar que apenas passou por mim, como um vento que não sabemos de onde vem nem para onde vai, mas que me viu e me amou. O túmulo estava vazio, mas de algum lugar eu sei que Ele me olhava de novo.