Diários apócrifos de Betânia — Madalena
Sempre houve ternura, afeto, delicadeza em sua fala. Qualquer coisa que ele pronunciasse vinha carregado de poesia. Mesmo os fariseus mais radicais, percebíamos neles certo desconforto diante de seus discursos, até quando os criticava duramente. Ele costumava dizer, antes de começar, em verdade, em verdade, e solenemente discorria sobre o amor, sobre a misericórdia, sobre as exigências para servir a Deus, sobre a importância do perdão, sobre o Reino e tantas outras coisas. Suas parábolas eram um encanto. Lembro de quase todas, impossível não lembrar. Depois que o ouvíamos, íamos para casa e durante longo tempo conversávamos sobre o que ele tinha falado. Realmente, a força de uma verdade brotava de seus lábios e tinha um poder de atração, de convencimento, de desconcerto intrigantes.
Mas hoje, ouvir ele chamar meu nome foi diferente de tudo. Não foi só meu nome, foi um salmo todo que eu ouvi, com harpa e lira e címbalos... Uma venda foi tirada de meus olhos, meus ouvidos se descerraram, uma emoção invadiu meu interior, não sabia se eu tinha perdido o chão ou recuperado ele debaixo dos pés. Não entendo até agora como eu não tinha reconhecido ainda a sua presença. Só sei que a vida me foi devolvida naquele momento. Jamais poderia imaginar que meu nome na boca dele fosse soar tão lírico como o ouvi. A vez que João partilhou como foi quando ele disse que iria escolher doze para estar com ele no caminho e entre eles chamou seu nome, disse que foi a coisa mais bonita que aconteceu na sua vida. Hoje sei o que João sentiu, sei o que ele ouviu. Não foi só o próprio nome. Há coisas que a gente apenas escuta. Não se sabe dizer com palavras o que ouviu, por não haver necessidade disso. Depois, pediu que eu fosse avisar aos demais.
Saí feito louca, feliz demais para acreditar que tudo era verdade. E era. Saí correndo igual alguém que sai em busca de uma parteira porque a criança está para nascer. Sim, dentro de mim nascia qualquer alegria que precisava vir à luz, à vida. Ele está vivo. Eu o vi. Ele falou meu nome. Ele vive. Ele, que tanta dignidade deu a nós mulheres, nos tratou com igualdade, nunca nos olhou de cima para baixo, sempre nos olhos. Era eu, uma mulher, a destinatária e a emissária da nova Páscoa, de algo que eu nem tinha consciência do que era. E ainda não tenho, reconheço. A poeira levantada por meus pés correndo ainda não decantou para enxergar o horizonte da nova estrada.
Agora, esperando que o sono venha, habitando novamente, em pensamento, aquela experiência indizível, fazendo memória do que vi e ouvi, fico imaginando tantas coisas. Fico me perguntando se Pedro e João também ouviram seus nomes hoje. Se o medo de seus corações também sumiu, como eu o vi desaparecer do meu. Maria! Um nome tão comum entre nós, igual ao de sua mãe – que honra a minha –, mas foi a mim que ele chamou. Maria! Eu. Minha vida, minha história, meu nome. Foi como ser seduzida. Foi o amor que me chamou. Foi o meu Senhor, o meu amado. Maria!
Neste momento, só há um desejo em meu coração. Rabuni, faça com que minhas palavras sejam as tuas. Não quero ser eu a falar, desejo que todos escutem o que eu também escutei. Quando eu abrir a boca e falar, o vento leve aos ouvidos sedentos a tua palavra, não as minhas, como aquele jardineiro da manhã foi o porta voz da tua voz. A Torá diz que Deus soprou nas narinas de Adão para que ele vivesse. Peço-te, Rabuni, insufla em minhas palavras a mesma força que deu a vida no princípio, já que tu sobes ao Pai. Não permitas que tua voz se cale ou cesse de dizer meu nome. E se isso acontecer, providencie outro jardineiro, para que eu habite novamente no teu Jardim.