As lágrimas contêm silêncios que jamais imaginamos. Chegar ao estado de lágrimas é romper o limiar de uma emoção, de uma dor, de uma angústia, de um remorso, de um pecado, de um desespero. A lágrima, por vezes, pode representar o último grito na tentativa de que alguém nos escute. Para além delas não há mais nada. Só entende uma lágrima quem já se lavou em suas águas. Uma lágrima é linguagem corporal, interior, de afeto, de sentimento. Linguagem universal que se compreende em qualquer língua. Chora-se ao nascer, chora-se ao morrer. Não matarás, não roubarás, não adulterarás.... Chorarás, porém – é mandamento simbiótico. Chora-se também por emoção, pela conquista, pelo esforço recompensado. Chora-se a partida do navio que deixa o porto. Chora-se o reencontro do navio que chega ao cais. Chora-se diante da beleza, do Sagrado, da dor, da tragédia. E chora-se de tanto rir.
Meu olhar poético lamenta as três lágrimas que foram silenciadas ou que o autor sagrado esqueceu – sem culpa, óbvio – de registrar no início de tudo. Imagino que as guardou para si ou, ao engolir a primeira, já sabendo da última, não registrou nenhuma. O leitor, mais ainda a leitora, haverão de concordar comigo que não há possibilidade nenhuma de elas não terem sido derramadas. A insensibilidade teria que beirar ares de absurdo caso tenha sido assim e isto seria incompatível com o poeta sagrado.
“Deus disse: eu vos dou toda as ervas que dão sementes... e todas as árvores que dão frutos... isso vos servirá de alimento. E todas as feras... e as aves... e os répteis... e toda a verdura das plantas, e assim se fez. E escorreu-lhe uma lágrima.” Foi uma lágrima amorosa. Tudo feito com música, dotado de perfeição jamais imaginada, com beleza, leveza e harmonia sinfônicas, as coisas dançavam em ritmo orquestral diante de seus olhos. O silêncio daquele dia e daquela lágrima foi ouvido pelo universo inteiro e todo ele se curvou diante de sua imagem e semelhança, reconhecendo emocionado quem fora criado para ser seu senhor e zeloso cuidador. Impossível não chorar. Resta saber que olhos lacrimejaram. Houve uma tarde, uma manhã e uma lágrima: sexto dia.
“Não é bom que o homem esteja só... Então fez cair um sono sobre ele, que dormiu. Tomou uma de suas costelas e modelou uma mulher e a trouxe ao homem. Este a viu e chorou.” Uma lágrima nupcial, uma lágrima que goteja até hoje diante do altar. Um choro de estupefação, de admiração, de contemplação da criatura mais bela. A lágrima do encanto, da sedução, que faz escorrer as litanias do amor de seu coração. E por ser feito de mesma essência, de mesma matéria prima, vertem lágrimas igualmente de seus olhos femininos, como fosse um e mesmo olhar, perdidos um dentro do outro. Vaza de ambos o choro da cumplicidade, da alegria da completude. As lágrimas e o prazer, que misteriosamente vertem juntos, permite-lhes experimentar a eternidade.
“E depois de tudo, os expulsou do jardim do Éden para cultivar o solo de onde foram tirados. E choraram, amargamente.” Cabeça pendida, olhos fundos e entristecidos, a passos lentos o paraíso fica para trás. Um peso incalculável lhe cai sobre os ombros. A lágrima causada por uma perda é quase insuportável, quando se toma consciência do valor que não lhe deu quando tudo era seu. De onde brota essa vertente? Que lençóis lacrimosos há nos subsolos de sua alma? Tudo tem seu preço e paga-se os erros com as lágrimas, as vezes do desespero, outras do arrependimento, as vezes da culpa, outras do ser vítima da própria armadilha. Esta terceira lágrima, pateticamente presente e claramente oculta desde o princípio, serpenteou pelas fendas abertas das histórias humanas e, derramada por olhos pecadores debruçados sobre os pés de Deus, encontrou guarida.
Nossos caminhos são regados com suor, sangue e lágrimas. Há silêncios em cada um deles, mas o das lágrimas são mais profundos. Não sei se foi Deus que derramou a primeira lágrima. Homem e mulher, sei, experimentaram as delícias das segundas e o terceiro pranto, será que chora conosco o Criador? Tomara que seja de nossas lágrimas sua sede na cruz, ainda que estejam mais para fel do que para mel.